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DINÂMICA INCORPORADORA - Construindo oportunidades, carreiras e futuros

DINÂMICA INCORPORADORA - Construindo oportunidades, carreiras e futuros

03 August 2026

Por Daiane Ferreira da Silva Lourenço*

Quem trabalha na construção civil já percebeu: hoje, o maior desafio não é levantar uma obra, é formar e manter equipe.

Aqui a gente tem buscado inovar, melhorar processos, trazer novas tecnologias e melhores práticas do mercado… mas encontrar pessoas qualificadas para a obra e para o escritório virou um dos grandes gargalos do setor.

Aqui na Dinâmica Incorporadora, a gente sente isso na prática. Mas, em vez de só reclamar da falta de mão de obra, temos buscado agir de um jeito mais estruturado: formando pessoas.

Neste momento, estamos com o curso de Aplicador de Revestimento Cerâmico, que teve início no último mês na obra Envolt Biofilic Home, no Setor Bueno. O curso faz parte do Programa Mais Empregos Qualificação, do Governo do Estado de Goiás, por meio da Secretaria da Retomada, em parceria com o SENAI. Ao todo, 50 colaboradores da Dinâmica estão tendo a oportunidade de ampliar seus conhecimentos e se qualificar. E isso não fica só dentro da empresa. Também abrimos e incentivamos a participação de familiares e pessoas da comunidade. Acreditamos que quanto mais gente qualificada existir, melhor para todos. Outro ponto importante: quando alguém é desligado da empresa durante um curso, não interrompemos esse processo. A pessoa pode seguir até o final, porque a formação continua fazendo sentido, independentemente do momento dentro da empresa.

Nos últimos anos, temos investido nesse tipo de capacitação principalmente nas obras, e no escritório estamos buscando aprimorar nossos processos de avaliação e feedback, com foco no desenvolvimento e na retenção dos colaboradores - para reduzir a necessidade de recomeçar constantemente a busca por profissionais no mercado.

Mas não é só sobre formar. Também é sobre reter.

Por isso, temos olhado com ainda mais atenção para clima organizacional, liderança, integração de novos colaboradores, treinamentos e comunicação interna. Porque não adianta só trazer gente nova - é preciso fazer com que as pessoas que estão conosco queiram ficar e crescer aqui dentro. O que, sabemos, também é um grande desafio, especialmente diante das mudanças geracionais.

No fim das contas, o desafio da mão de obra não é de uma empresa só. É de todo o setor. Quanto mais empresas, instituições e entidades trabalharem juntas, mais gente qualificada conseguimos formar.

E, no fim, quando falamos em construir, não é só sobre prédios. É sobre construir oportunidades, carreiras e futuros também.

* Psicóloga, formada em 2017 pela UNIALFA, com pós-graduação em Psicologia Organizacional e do Trabalho, concluída em 2021 pelo IPOG. Possui 14 anos de experiência na área de Recursos Humanos, com atuação na estruturação de departamentos de RH e no desenvolvimento de estratégias voltadas à construção de ambientes de trabalho mais humanos, alinhados à cultura e aos objetivos organizacionais. Atualmente, atua como Coordenadora de Gente e Gestão na Dinâmica Incorporadora.

ENTREVISTA - Caminhos para enfrentar a escassez de mão de obra na construção

ENTREVISTA - Caminhos para enfrentar a escassez de mão de obra na construção

03 August 2026
  • ENTREVISTA

Nesta entrevista, a engenheira civil e economista Maria Eugenia Fornea, presidente da ADEMI-PR e diretora executiva da incorporadora Weefor, analisa as mudanças no mercado de trabalho, explica por que os modelos tradicionais de liderança já não respondem às expectativas das novas gerações e compartilha a experiência de uma empresa que conseguiu reduzir significativamente seu índice de rotatividade por meio de uma cultura organizacional baseada em desenvolvimento, autonomia e propósito. Ao longo da conversa, ela também reflete sobre os desafios enfrentados pelo setor em Goiás e defende que a próxima grande vantagem competitiva da construção civil não estará apenas na capacidade de erguer empreendimentos, mas de construir ambientes onde as pessoas queiram trabalhar, evoluir e permanecer.

A construção civil em todo o Brasil enfrenta dificuldades para atrair e reter profissionais. Na sua avaliação, quais são as principais causas desse cenário?

Acredito que a construção civil vive hoje uma crise que vai muito além da falta de mão de obra. Estamos diante de uma transformação profunda na relação das pessoas com o trabalho, enquanto boa parte do nosso setor continua operando com modelos de gestão concebidos há décadas.

A construção civil é uma das indústrias mais tradicionais da economia brasileira. Grande parte das empresas ainda possui estruturas familiares, modelos hierárquicos rígidos e uma cultura construída em um contexto muito diferente do atual. Ao mesmo tempo, é um dos setores que menos evoluiu em produtividade quando comparado a outras indústrias. Enquanto segmentos como manufatura, tecnologia e serviços incorporaram rapidamente inovação, digitalização e novas formas de gestão, a construção avançou em um ritmo muito menor.

Isso não significa apenas inovar pouco em tecnologia ou processos construtivos. Significa também inovar pouco na forma de liderar pessoas.

Além disso, existe uma característica própria da construção civil: é um trabalho predominantemente presencial, fisicamente exigente e com menor flexibilidade do que outros setores. Hoje disputamos profissionais com empresas de tecnologia, mercado financeiro, consultorias e startups, que oferecem modelos de trabalho mais flexíveis e ambientes de desenvolvimento muito estruturados.

Mas acredito que o maior equívoco seja atribuir esse cenário às novas gerações. As pessoas mudaram. A sociedade mudou. A forma de enxergar o trabalho mudou.

Hoje remuneração continua sendo importante, mas deixou de ser o único fator de decisão. Flexibilidade, desenvolvimento profissional, qualidade da liderança, propósito, autonomia e saúde mental passaram a ter um peso enorme na escolha de onde trabalhar e, principalmente, onde permanecer.

Por isso, acredito que o setor precisa mudar a pergunta. Em vez de questionar por que as pessoas não querem mais trabalhar na construção civil, precisamos perguntar o que a construção civil precisa fazer para voltar a ser um setor desejado para trabalhar.

As pessoas não vão voltar aos modelos de gestão do passado. É o setor que precisa evoluir.

A Weefor registra um turnover de cerca de 27%, índice abaixo da média do setor em muitas regiões. Quais foram as mudanças de gestão que mais contribuíram para esse resultado?

Antes de responder, acho importante fazer uma ressalva. A Weefor é uma empresa jovem e de pequeno porte. Isso significa que a escala dos nossos desafios também é diferente da realidade de grandes construtoras e incorporadoras. Não seria justo comparar contextos tão distintos. Ainda assim, temos conseguido manter indicadores de retenção e engajamento bastante positivos para o setor, e acredito que algumas das práticas que adotamos podem ser aplicadas por empresas de diferentes tamanhos.

A principal mudança foi entender que pessoas não são um tema de Recursos Humanos. Pessoas são estratégia de negócio.

Durante muito tempo a construção civil investiu pesadamente em produto, tecnologia e processos, mas pouco em cultura organizacional. Nós decidimos investir também nas pessoas.

Na Weefor estruturamos nossa cultura sobre quatro pilares: desenvolvimento intelectual, respeito nas relações, confiança com autonomia e compreensão do impacto do nosso trabalho.

Esses pilares deixaram de ser um discurso bonito e passaram a orientar decisões concretas. Implantamos PDIs, avaliações 360°, conversas periódicas de desenvolvimento, incentivo permanente ao aprendizado, programas como a Cumbuca, o Projeto MUDAR, o Obra sem Assédio e políticas que reforçam confiança, autonomia e responsabilidade compartilhada.

Mas talvez a maior mudança tenha sido entender que as pessoas não querem apenas executar tarefas. Elas querem crescer, aprender, participar das decisões e entender o impacto do que fazem.

Quando isso acontece, a retenção deixa de ser consequência apenas de benefícios ou remuneração e passa a ser consequência da experiência que elas vivem todos os dias dentro da empresa.

Você defende um modelo de gestão horizontal sem abrir mão da hierarquia. Como esse conceito funciona, na prática, dentro de uma incorporadora?

Eu costumo dizer que hierarquia e horizontalidade não são conceitos opostos.

Toda empresa precisa de alguém responsável por tomar decisões, definir prioridades e responder pelos resultados. A hierarquia continua existindo.

O que muda é a forma como a liderança acontece.

Na Weefor a responsabilidade é vertical, mas a informação é horizontal. As pessoas participam das discussões, entendem os motivos das decisões, têm liberdade para questionar, sugerir melhorias e contribuir independentemente do cargo.

Isso gera decisões melhores porque diferentes perspectivas são consideradas, mas sem perder clareza sobre quem decide e quem responde por cada resultado.

Na minha visão, liderança não é controlar pessoas. Liderança é criar condições para que as pessoas façam seu melhor trabalho.

Existe resistência por parte das lideranças mais tradicionais em adotar esse modelo?

Existe, principalmente porque muitos líderes foram formados em um contexto em que liderança significava controle.

Só que controlar pessoas é muito diferente de desenvolver pessoas.

Quando você constrói uma cultura baseada em confiança e autonomia, o papel do líder muda completamente. Ele deixa de ser quem concentra todas as respostas e passa a ser quem desenvolve capacidade de decisão dentro da equipe.

Esse modelo exige muito mais preparo da liderança. É mais fácil controlar tarefas do que formar pessoas capazes de pensar, decidir e assumir responsabilidades.

Há quem afirme que a Geração Z é menos comprometida com o trabalho. Essa percepção corresponde à realidade ou revela uma dificuldade das empresas em compreender uma nova geração?

Eu não acredito que exista uma geração menos comprometida.

Acho que existe uma geração que faz perguntas diferentes.

Ela quer saber se vai aprender, se terá oportunidades de crescimento, se existe respeito nas relações, se seu trabalho tem impacto e se o ambiente faz sentido para a vida que deseja construir.

Isso não significa falta de comprometimento.

Significa que o vínculo entre empresa e colaborador mudou.

As novas gerações não estão dispostas a permanecer em ambientes onde existe apenas cobrança e pouca oportunidade de desenvolvimento.

Se uma empresa oferece aprendizado, boas lideranças, autonomia e propósito, encontra profissionais extremamente comprometidos.

O desafio não está na Geração Z.

O desafio está em empresas que continuam tentando liderar pessoas de 2026 com modelos de gestão de 1990.

Quais práticas implantadas pela Weefor tiveram maior impacto na retenção de talentos e no engajamento das equipes?

Eu destacaria cinco.

Primeiro, transformar desenvolvimento em rotina. O aprendizado faz parte do nosso dia a dia e não acontece apenas em treinamentos esporádicos.

Segundo, institucionalizar conversas de desenvolvimento por meio dos PDIs, avaliações 360° e encontros individuais periódicos.

Terceiro, construir um ambiente verdadeiramente respeitoso. Programas como o Obra sem Assédio deixam claro que respeito não é um valor abstrato, mas um compromisso da empresa.

Quarto, substituir controle por autonomia com responsabilidade.

E quinto, conectar as pessoas ao propósito.

Na Weefor ninguém trabalha apenas para entregar um empreendimento. Trabalhamos para produzir cidade, melhorar espaços urbanos, discutir arquitetura e gerar impacto positivo na sociedade.

Quando as pessoas entendem o significado do que fazem, o trabalho deixa de ser apenas uma atividade profissional.

Goiás vive um momento de forte expansão imobiliária, mas a escassez de mão de obra qualificada se tornou um dos principais limitadores do crescimento. Que lições da experiência da Weefor podem ser aplicadas pelas empresas goianas?

Acredito que não exista uma fórmula pronta, porque nós também convivemos diariamente com a dificuldade de atrair e reter profissionais qualificados. É um desafio de todo o setor da construção.

O que aprendemos na Weefor é que pessoas precisam ser tratadas como um ativo estratégico. Durante muito tempo as empresas competiram por terrenos, crédito e tecnologia. Nos próximos anos, a competição será, cada vez mais, por talentos.

Claro que remuneração é importante, mas ela, sozinha, não resolve o problema. Temos buscado investir em desenvolvimento, formar boas lideranças, criar um ambiente em que as pessoas tenham autonomia, aprendam e enxerguem oportunidades de crescimento. Ainda estamos aprendendo, mas percebemos que isso faz diferença.

Como presidente da ADEMI-PR, você acompanha de perto os desafios do mercado imobiliário. A questão da mão de obra já supera outros entraves, como juros, crédito e burocracia?

TalvezJuros elevados, restrição de crédito e insegurança regulatória continuam sendo enormes desafios para o mercado imobiliário brasileiro.

Mas a mão de obra deixou de ser um problema operacional e passou a ser um problema estratégico.

Mesmo em um cenário econômico favorável, empresas que não conseguirem formar lideranças, atrair talentos e desenvolver pessoas terão dificuldade para crescer.

Acredito que esse tema ocupará cada vez mais espaço na agenda dos empresários da construção civil.

Se pudesse dar três recomendações aos empresários da construção civil goiana que hoje enfrentam dificuldades para contratar e manter profissionais, quais seriam?

Primeiro, parem de tratar cultura como um projeto de Recursos Humanos. Cultura é uma decisão estratégica da liderança e influencia diretamente a capacidade de atrair e reter talentos.

Segundo, invistam mais na formação de líderes do que no controle das equipes. As pessoas dificilmente deixam empresas. Na maioria das vezes, deixam líderes.

E, por fim, aceitem que o mercado de trabalho mudou. Não faz sentido esperar que as novas gerações se adaptem a modelos de gestão construídos para outra realidade. As empresas que sairão na frente serão aquelas que tiverem coragem de evoluir antes dos seus concorrentes.

No fim das contas, acredito que a grande vantagem competitiva da construção civil na próxima década não será apenas quem constrói os melhores empreendimentos, mas quem consegue construir os melhores ambientes para que as pessoas trabalhem, cresçam e permaneçam. Esse, para mim, é o verdadeiro desafio do setor.

SENAI GOIÁS - Formação dual prepara os engenheiros do futuro

SENAI GOIÁS - Formação dual prepara os engenheiros do futuro

03 August 2026
  • SENAI GOIÁS

Por Weysller Matuzinhos*

O desafio de encontrar profissionais qualificados para a Construção Civil tem no seu centro a inserção da Geração Z no mercado de trabalho, jovens nascidos entre 1995 e 2012 que somam mais de 45 milhões de brasileiros, segundo dados do IBGE. Esses jovens, aqui focando os que concluíram o ensino superior e ingressam nas empresas goianas, enfrentam o duro impacto do gap entre a teoria acadêmica e as exigências práticas do dia a dia corporativo. O abismo tornou-se ainda mais evidente porque essa fatia de recém-graduados viveu anos cruciais de sua formação em salas de aula virtuais devido à pandemia, o que reduziu drasticamente o contato físico com laboratórios, estágios e vivências práticas.

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Informativo do Sinduscon-GO: Construir Mais on-line - Ano 5 Edição nº 17

Informativo do Sinduscon-GO: Construir Mais on-line - Ano 5 Edição nº 17

16 June 2026

O Sinduscon-GO lançou a 17ª edição de seu informativo online, trazendo um panorama completo sobre os rumos da construção civil no Estado. Reunindo pautas fundamentais como qualificação profissional, modernização da legislação urbanística, novos créditos voltados ao ESG e a aplicação prática da Construção 4.0, a edição é uma leitura obrigatória para empresários, engenheiros e profissionais do setor.

Aproveite este conteúdo exclusivo preparado para fortalecer o ambiente de negócios da construção em nosso estado.

Acesse o PDF completo e mantenha-se atualizado com as principais pautas da construção civil goiana.

ler revista digital

 

 

Camila Storti, CEO da Abissal Capitalismo Saudável, em foto de perfil com blusa branca e logo da empresa ao fundo.

ESG NA CONSTRUÇÃO - O novo caminho do crédito e da competitividade no mercado imobiliário

10 June 2026
  • ESG NA CONSTRUÇÃO

O mercado imobiliário brasileiro vive uma transformação estrutural. A sustentabilidade deixou de ser um diferencial de marketing para se tornar uma exigência de acesso a crédito, condições financeiras privilegiadas e competitividade comercial. Bancos privados, fundos de investimento e compradores finais passaram a exigir métricas claras de eficiência ambiental e social dos empreendimentos.

Para entender como incorporadoras e construtoras podem navegar esse novo cenário, a Revista Sinduscon entrevistou Camila Storti, Administradora de Empresas com especialização em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, CEO da Abissal Capitalismo Saudável — consultoria que em 2026 completa 20 anos de atuação ajudando empresas de diversos setores a implementar estratégias de certificação em sustentabilidade e ESG. Embora atue com indústrias variadas, Camila tem acompanhado de perto a jornada de grandes incorporadoras goianas em direção às certificações B Corp, LEED, GBC Brasil e EDGE.

- Você acompanha o mercado imobiliário há duas décadas. Como o ESG deixou de ser um "plus" para se tornar uma exigência de mercado e financeira?

A mudança é estrutural e veio para ficar. Há 20 anos, quando fundei a Abissal, sustentabilidade em construção era restrita a pouquíssimas (e visionárias) empresas do setor, em sua maioria, as empresas reduziam estes conceitos a questões de cumprimento legal ambiental. Hoje, o conceito se sofisticou e se integrou à engenharia financeira dos empreendimentos. O mercado de capitais e o sistema bancário brasileiro, pressionados por regulações internacionais e pela agenda climática, passaram a exigir métricas objetivas de desempenho ambiental e social para, inclusive, conceder crédito.

Esse movimento é impulsionado por três forças simultâneas: a regulamentação do Banco Central do Brasil sobre riscos climáticos (Resolução BCB nº 140/2021 e posteriores), as exigências de taxonomia de finanças sustentáveis da Febraban [Febraban, 2025] e, principalmente, o apetite do consumidor final. O comprador de imóvel de alto padrão — e cada vez mais o de médio padrão — busca edificações que ofereçam eficiência operacional, redução de custos condominiais e menor impacto ambiental. Esse tripé transformou a sustentabilidade de custo de conformidade em vantagem competitiva real.

-  E como as certificações — B Corp, LEED, GBC Brasil, AQUA-HQE e EDGE — se encaixam nesse novo ambiente para construtoras e incorporadoras?

Cada uma dessas certificações oferece um "idioma" diferente para traduzir a sustentabilidade do empreendimento para o mercado. O LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) é o selo mais difundido globalmente, avaliando o edifício em categorias como eficiência energética, uso racional da água, materiais sustentáveis e qualidade do ambiente interno [USGBC, 2025]. O GBC Brasil Condomínio é uma adaptação brasileira extremamente robusta, pensada para a nossa realidade construtiva, aplicada a condomínios residenciais verticais ou horizontais [GBC Brasil, 2025].

Já a certificação AQUA-HQE (de origem francesa) é particularmente forte na gestão ambiental da obra, com exigências rigorosas para o canteiro, incluindo planos de gerenciamento de resíduos e controle de emissões [Fundação Vanzolini, 2025]. O EDGE (Excellence in Design for Greater Efficiencies), uma iniciativa da IFC (membro do Grupo Banco Mundial), foca estritamente na redução mínima de 20% no consumo de água, energia e energia embutida nos materiais de construção, com uma plataforma digital ágil e de menor custo de auditoria [IFC/World Bank, 2023; 2025].

Por fim, a Certificação de Empresa B, que acompanhei de perto em diversas construtoras Goianas (como Newinc, FR, Sousa Andrade, por exemplo), é uma certificação que vai além do produto — ela avalia a empresa como um todo: seu propósito, sua governança, suas relações com trabalhadores, comunidade e meio ambiente [B Lab, 2025].

No setor imobiliário, o que temos visto é uma convergência: incorporadoras que buscam o selo B Corp e, simultaneamente, certificam seus empreendimentos com EDGE, LEED ou GBC. Isso gera uma credibilidade dupla — a empresa é íntegra na sua gestão corporativa, e o prédio é comprovadamente eficiente na ponta.

- Um dos principais argumentos contra a adoção de critérios sustentáveis sempre foi o custo. A você pode detalhar a real equação econômica para uma incorporadora ou construtora hoje?

Esse é o mito que mais precisa ser desfeito com dados concretos. Historicamente, atribuía-se um adicional, em média, de 15% no custo de construção para tornar um edifício "verde". Isso não se sustenta mais. De acordo com um levantamento do Green Building Council Brasil [GBC Brasil, 2025], o custo incremental médio para certificar um empreendimento residencial de médio e alto padrão ficou entre 3% e 5% do CAPEX total, podendo ser inferior a 2% em projetos planejados sob conceitos bioclimáticos desde a concepção. No caso do selo EDGE, estudos globais da International Finance Corporation [IFC/World Bank, 2023; 2025] demonstram que o custo incremental médio de construção fica entre 0,5% e 3%, apresentando uma das relações de custo-benefício mais agressivas do mercado internacional para habitação de interesse social e de médio padrão.

A grande virada, no entanto, está no outro lado da equação: o OPEX (custo operacional). Um edifício certificado LEED ou GBC reduz, em média, entre 25% e 35% no consumo de energia elétrica e entre 30% e 40% no consumo de água [CBIC, 2025]. Para o enquadramento no nível básico da certificação EDGE, exige-se uma redução comprovada de no mínimo 20% em energia, água e energia embutida nos materiais [IFC, 2025]. Para um condomínio residencial de médio porte, esse desempenho combinado representa uma economia que pode chegar a R$ 200 mil por ano em taxas condominiais. O retorno do investimento (payback) do custo da certificação e das tecnologias eficientes ocorre em um prazo curto, situado entre 3 e 5 anos [GBC Brasil, 2025; IFC/World Bank, 2023].

- E como isso se traduz em vantagens no financiamento bancário para construtoras?

Aqui está o ponto mais estratégico para o nosso setor. Os bancos privados brasileiros não operam essas linhas de crédito de forma isolada; eles estruturam seus produtos verdes em alinhamento direto com frameworks de organismos multilaterais. Um exemplo disso é a IFC e o Banco Mundial, além de seguir a taxonomia de finanças sustentáveis da Febraban [Febraban, 2025].

A IFC atua globalmente como a principal catalisadora desse mercado, aportando capital de longo prazo e ancorando a emissão de títulos verdes (green bonds) de bancos comerciais, desde que estes utilizem metodologias de comprovação de impacto robustas, como a plataforma EDGE — desenvolvida pela IFC para desriscar carteiras imobiliárias em mercados emergentes [IFC/World Bank, 2023; 2025].

Na prática local, esse respaldo internacional se converte em benefícios palpáveis na ponta para as construtoras goianas. O Itaú BBA [Itaú BBA, 2025] oferece, no seu Plano Empresário Verde, uma redução de spread que pode chegar a 0,7 ponto percentual ao ano para projetos que comprovem a pré-certificação EDGE ou LEED. O Santander Brasil [Santander, 2024] também possui linhas com descontos similares, além da possibilidade de financiar até 90% do valor do imóvel, para adquirentes de unidades em edifícios certificados GBC Condomínio — contra o limite padrão de 80% do mercado tradicional [Banco Central do Brasil, 2023]. O Bradesco [Bradesco, 2025], por sua vez, estabeleceu em seu Framework de Finanças Sustentáveis que empreendimentos com selos de sustentabilidade comprovados podem receber prazos de carência estendidos de 18 para 24 meses na fase de obra.

No fim do dia, a lógica é simples: a IFC e o Banco Mundial garantem o funding e o rigor técnico global, a certificação EDGE ou LEED atesta a elegibilidade do empreendimento, e os bancos privados nacionais reduzem as taxas porque o risco físico e de transição daquele ativo imobiliário é drasticamente menor. Para uma incorporadora financiando R$ 30 milhões em obra, uma redução de apenas 0,5% ao ano na taxa de juros representa uma economia real superior a R$ 1 milhão ao longo de 5 anos.

- Diante desse cenário, qual o passo prático que uma construtora ou incorporadora deve seguir para acessar esses benefícios?

O processo exige planejamento e disciplina, mas é perfeitamente factível. Vou descrever as seis etapas essenciais que orientamos em nossa consultoria na Abissal:

1. Definição do objetivo e escolha da certificação: O primeiro passo é compreender o perfil do empreendimento. Para um residencial de médio padrão que busca rápida validação bancária, a certificação EDGE é a mais indicada pelo baixo custo incremental (0,5% a 3% do CAPEX) e pela agilidade do processo digital [IFC/World Bank, 2023]. Para empreendimentos de alto padrão corporativo, o LEED ou o GBC Brasil Condomínio oferecem maior abrangência de créditos e reconhecimento internacional. Já para empresas que desejam ser avaliadas como um todo — sua governança, impacto social e ambiental — a certificação B Corp é o caminho.

2. Pré-certificação na fase de projeto: A grande virada de chave ocorre aqui. O projeto arquitetônico e os sistemas prediais (climatização, iluminação, hidráulica) precisam ser concebidos desde o início para atender aos requisitos da certificação escolhida. Para o EDGE, a própria plataforma online permite simular os desempenhos e gerar a pré-certificação. Sem essa etapa, não há enquadramento nas linhas de crédito verde dos bancos [GBC Brasil, 2025; IFC, 2025].

3. Documentação e due diligence técnica: O incorporador precisa organizar um dossiê técnico que comprove as especificações sustentáveis: memoriais descritivos, projetos de eficiência energética, especificações de materiais e sistemas. Os bancos — Itaú, Santander, Bradesco — exigem a apresentação da pré-certificação e, em alguns casos, um Parecer de Segunda Opinião (SPO) emitido por auditoria independente, validando o alinhamento às Green Bond Principles [Febraban, 2025; Bradesco, 2025].

4. Negociação com o banco e obtenção do financiamento: Com a documentação em mãos, a incorporadora ou construtora deve procurar a gerência de crédito imobiliário do banco e apresentar o projeto. As condições preferenciais (spread reduzido, carência estendida, LTV elevado) são formalizadas em contrato. É importante lembrar que os descontos podem estar atrelados a compromissos de desempenho — se a certificação final não for alcançada, a taxa pode retroagir aos patamares de mercado [Itaú BBA, 2025].

5. Execução da obra com gestão ambiental do canteiro: A certificação não é apenas sobre o prédio pronto; o canteiro de obras também precisa ser sustentável. Isso envolve: plano de gerenciamento de resíduos (reciclagem mínima de 60% dos resíduos sólidos, conforme meta do GBC Brasil [GBC Brasil, 2025]), controle de poeira e ruído, uso de água reciclada na obra e treinamento da mão de obra em práticas de construção enxuta (lean construction).

6. Auditoria final e obtenção do selo definitivo: Ao término da obra, uma auditoria independente verifica se o que foi projetado foi efetivamente construído. A emissão do selo definitivo é a chave para a liberação integral das condições financeiras e para a valorização do imóvel no mercado secundário.

 - E quanto ao risco de greenwashing? Como evitar que uma certificação seja apenas um selo de fachada?

O greenwashing é o maior risco reputacional e financeiro para qualquer incorporadora hoje. A melhor blindagem contra isso é a terceirização da verificação. Certificações como LEED, GBC, EDGE e AQUA-HQE exigem auditorias independentes e organismos certificadores credenciados. Quando uma construtora busca o selo B Corp, a auditoria é ainda mais profunda, analisando a cadeia de fornecedores, as políticas trabalhistas e a governança [B Lab, 2025].

O conselho que sempre dou aos nossos clientes é: não tente "cortar caminho". Um projeto mal planejado que não atinge os indicadores prometidos gerará retrabalho e, pior, uma exposição negativa que pode comprometer futuras linhas de crédito. O mercado financeiro está cada vez mais sofisticado em detectar inconsistências entre o discurso e a prática.

- A você conhece profundamente o mercado goiano. Como Goiás está se posicionando nessa corrida pela sustentabilidade imobiliária?

Goiás vive um momento extraordinário. O estado tem um mercado imobiliário pujante, impulsionado pelo agronegócio e pela interiorização do desenvolvimento econômico. Goiânia, em especial, experimentou nos últimos cinco anos uma verticalização intensa, com lançamentos de alto padrão que competem diretamente com os grandes centros do Sudeste.

O que observo é que as incorporadoras goianas mais visionárias já entenderam que a certificação é um diferencial competitivo decisivo. Empreendimentos certificados com selos de eficiência energética e hídrica em Goiânia têm conseguido velocidade de vendas superior em relação a empreendimentos similares não certificados [Sienge, 2026]. O comprador do alto padrão goiano — geralmente um profissional liberal, pecuarista ou empresário do agro — é extremamente informado e valoriza a eficiência operacional e a consequente redução de custos de condomínio e manutenção.

Graças a esse ecossistema, o mercado de financiamento imobiliário verde já é uma realidade plenamente acessível em Goiás. Os bancos privados como Itaú BBA, Santander e Bradesco possuem gerências regionais perfeitamente capacitadas para avaliar e aprovar projetos certificados localmente.

- Olhando para frente, quais são as principais tendências tecnológicas e de materiais que vão transformar os canteiros de obras nos próximos anos?

A revolução está nos materiais e na gestão inteligente do canteiro. A descarbonização do concreto e do aço é a prioridade número um da agenda global. O concreto é responsável por cerca de 8% das emissões globais de CO₂ [IEA, 2024], e o setor de construção brasileiro está sendo forçado a adotar alternativas de baixo carbono — como cimentos com menor teor de clínquer, concreto reciclado e aço produzido com energia renovável.

Nesse contexto, a IFC lançou o padrão EDGE Zero Carbon, que vai além da eficiência energética para exigir a compensação ou eliminação total das emissões operacionais e incorporadas de um edifício [IFC/World Bank, 2025]. Para as construtoras, isso significa que, em breve, não bastará reduzir o consumo de energia; será preciso demonstrar a pegada de carbono de cada material utilizado na obra.

Outra tendência é a Internet das Coisas (IoT) aplicada ao canteiro. Sensores inteligentes já permitem monitorar em tempo real o consumo de água e energia da obra, a geração de resíduos e as condições de segurança dos trabalhadores. Esses dados, integrados a plataformas de building information modeling (BIM), permitem ajustes imediatos que reduzem desperdícios e aumentam a produtividade.

A economia circular também avança rapidamente. Estudos do Sienge [Sienge, 2026] indicam que canteiros que implementam programas estruturados de reciclagem de resíduos — com triagem de entulho, reutilização de madeira e metais — conseguem reduzir em até 40% o volume de resíduos enviados a aterros, gerando economia direta na gestão de resíduos e potencial receita com a venda de materiais recicláveis.

- Qual a sua recomendação final para os associados do Sinduscon que desejam se antecipar a esse futuro?

Minha recomendação é clara: não esperem a regulamentação chegar para agir. O mercado já está se movendo, e os primeiros a se posicionarem colherão os maiores benefícios — crédito mais barato, maior velocidade de vendas, clientes mais fiéis e uma reputação de marca valiosa.

Do ponto de vista prático, sugiro que cada construtora e incorporadora realize, ainda em 2026, um diagnóstico de maturidade ESG de seus processos e empreendimentos. Identifique quais certificações são mais viáveis para o seu portfólio e inicie o processo de capacitação de suas equipes técnicas.

O futuro da construção civil já começou. As empresas que entenderem que sustentabilidade não é despesa, mas sim o melhor investimento para a próxima década, serão as que liderarão o mercado nos próximos 20 anos.

Referências Citadas

  • Banco Central do Brasil. (2023). Relatório de Estabilidade Financeira – Riscos Climáticos e Regulação Prudencial. Brasília: BCB.
  • B Lab. (2025). Certificação de Empresas B: Padrões e Processos de Avaliação. Disponível em: https://www.bcorporation.net
  • (2025). Framework de Finanças Sustentáveis do Bradesco. São Paulo: Bradesco S.A. Disponível em: https://assets.bradesco/content/dam/portal-bradesco/assets/classic/pdf/sustentabilidade/Financas_Sustentaveis-Framework.pdf
  • CBIC – Câmara Brasileira da Indústria da Construção. (2025). Desempenho Energético e Hídrico de Edificações Certificadas no Brasil. Brasília: CBIC.
  • Febraban – Federação Brasileira de Bancos. (2025). Taxonomia de Finanças Sustentáveis: Diretrizes para o Setor Bancário Brasileiro. São Paulo: Febraban.
  • Fundação Vanzolini. (2025). Certificação AQUA-HQE: Referencial Técnico para Edificações. São Paulo: Fundação Vanzolini.
  • GBC Brasil – Green Building Council Brasil. (2025). Custo Incremental e Retorno de Investimento em Edificações Certificadas – Relatório Setorial. São Paulo: GBC Brasil.
  • IEA – International Energy Agency. (2024). Global Status Report for Buildings and Construction. Paris: IEA/UNEP.
  • IFC – International Finance Corporation / World Bank Group. (2023). Green Buildings: A Finance and Policy Blueprint for Emerging Markets. Washington, D.C.: IFC.
  • IFC – International Finance Corporation / World Bank Group. (2025). EDGE (Excellence in Design for Greater Efficiencies): Plataforma de Certificação e Padrão Zero Carbon. Washington, D.C.: IFC. Disponível em: https://www.edgebuildings.com
  • Itaú BBA. (2025). Plano Empresário Verde: Condições para Incorporadoras – Guia de Produto. São Paulo: Itaú Unibanco S.A.
  • Santander Brasil. (2024). Linha de Crédito para Prédios Sustentáveis – Reporte de Sustentabilidade 2024. São Paulo: Santander Brasil S.A.
  • (2026). Indicadores de Mercado Imobiliário Sustentável: Velocidade de Vendas e Prêmio Verde. Florianópolis: Sienge/Sênior Sistemas.
  • USGBC – U.S. Green Building Council. (2025). LEED v5: Rating System for Building Design and Construction. Washington, D.C.: USGBC.
  1. INDUSTRIALIZAÇÃO DA CONSTRUÇÃO - Chave para atrair jovens e enfrentar escassez de mão de obra
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  4. SENAI CANAÃ - Qualificação profissional na construção civil com foco na inclusão social

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