Em minha trajetória como engenheiro, já estive em contato com muitas oportunidades de inovação no setor da construção. Porém, percebo que estamos vivendo um momento decisivo, uma virada que já começou nas empresas e segue em ritmo acelerado. Quem observa atentamente percebe que há uma verdadeira corrida por competitividade e que os melhores são aqueles que investem tempo e recursos de forma estratégica, equilibrando ações de curto, médio e longo prazo.
No curto prazo, tecnologias já consolidadas precisam ser aplicadas com mais eficiência, e, se ainda não fazem parte da rotina das obras, devem ser urgentemente incorporadas. No médio prazo, tecnologias emergentes estão criando oportunidades e ameaças capazes de transformar profundamente o setor. E, no longo prazo, sabemos que revoluções industriais moldam sociedades inteiras. Por isso, cabe a nós definirmos qual será o nosso papel nessa história, à medida que os efeitos positivos e negativos da digitalização, da robotização e da inteligência artificial se consolidam na construção civil.
A digitalização não é apenas sobre trocar papéis por tablets ou usar drones nas obras. Trata-se, sobretudo, de redefinir o modo como projetamos, planejamos, executamos e gerimos nossos empreendimentos. Essa transição, que alguns chamam de Construção 4.0, vem transformando silenciosamente o canteiro de obras em um ambiente cada vez mais conectado, seguro e produtivo. Automação, sensores, dados em tempo real e inteligência artificial deixam de ser promessas e passam a integrar o dia a dia de construtoras e incorporadoras que buscam competitividade.
Entre os avanços mais significativos estão os chamados gêmeos digitais, réplicas virtuais da edificação alimentadas continuamente por dados do campo. Sensores de umidade, temperatura e vibração, aliados a drones e câmeras inteligentes, atualizam o modelo BIM e permitem identificar interferências, atrasos e desvios antes que se tornem problemas reais. Essa “construção preditiva” muda a lógica do canteiro, pois não reagimos mais a imprevistos, mas passamos a antecipá-los com base em dados.
Outro aspecto fundamental dessa revolução é a gestão integrada por softwares e inteligência artificial. Hoje, é possível conectar planejamento, orçamento, qualidade, segurança e logística em um mesmo ambiente digital. Dashboards oferecem uma visão em tempo real da obra, e algoritmos de IA já são capazes de apontar gargalos, sugerir decisões e prevenir falhas. A gestão se torna menos intuitiva e mais baseada em evidências, com menos reação e mais antecipação.
Com essa integração, a segurança e o controle de qualidade ganham novos patamares. Câmeras com análise de imagem verificam automaticamente o uso de EPIs. Sensores de proximidade identificam riscos antes que ocorram. Modelos digitais permitem auditorias virtuais e inspeções preventivas. A tecnologia reduz o retrabalho, minimiza acidentes e torna o canteiro mais previsível. Em resumo, ela devolve ao engenheiro aquilo que sempre foi o seu maior valor: a capacidade de decidir com precisão.
Mas, embora o avanço tecnológico seja evidente, pesquisas recentes mostram que o Brasil ainda tem muito a evoluir. Estudos conduzidos pelo BIM Fórum Brasil, Confea/CREA e ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) revelam que o país se encontra em um estágio inicial de maturidade digital. Na segunda edição da Pesquisa Nacional sobre Digitalização no Âmbito da Indústria da Construção, divulgada em 2024, apenas 33,8% dos profissionais afirmaram utilizar a metodologia BIM de forma prática. Outros 56,7% ainda estão em fase de descoberta. Quando analisamos o conhecimento sobre tecnologias da chamada Indústria 4.0, o número cai para 38,5%.
Esses dados evidenciam que, apesar de um discurso cada vez mais presente sobre inovação, a adoção efetiva de tecnologias digitais ainda é restrita. O desafio maior não é técnico, mas cultural. Falta integração entre sistemas, planejamento estratégico e capacitação das equipes. Muitas empresas ainda veem a inovação como custo e não como investimento. Outras operam em “ilhas digitais”, onde cada departamento usa ferramentas diferentes, sem diálogo entre elas. Há também limitações estruturais, como obras em locais com baixa conectividade, falta de infraestrutura de TI e ausência de processos padronizados.
A superação desses desafios exige liderança, visão de longo prazo e um compromisso real com a mudança. É preciso investir em pessoas, revisar processos e medir resultados. A digitalização não é um software que se instala; é uma cultura que se constrói. E essa construção passa, antes de tudo, por mentalidade.
Em poucos anos, será impensável conduzir uma obra sem dashboards integrados, rastreabilidade de dados e controle automatizado de qualidade. As empresas que compreenderem isso agora e investirem em integração entre pessoas, processos e tecnologia terão uma vantagem competitiva incontestável. Estamos entrando em uma era em que o digital e o físico caminham lado a lado, e onde a informação se torna o principal insumo da construção.
Costumo dizer que a construção digital não substitui o engenheiro; ela o amplia. Amplia sua capacidade de análise, de decisão e de impacto. O engenheiro do futuro será, antes de tudo, um gestor de dados, alguém capaz de interpretar o que as máquinas indicam e traduzir isso em ações práticas de produtividade, qualidade e segurança.
O Brasil ainda tem muito espaço para crescer, mas o movimento é irreversível. Quem adotar uma postura proativa, investindo em BIM, gêmeos digitais, sensores, IA e integração de sistemas, estará não apenas se modernizando, mas garantindo seu lugar no futuro da construção. Estamos diante de uma oportunidade histórica de reposicionar o setor, de reativo e fragmentado para conectado, inteligente e colaborativo.
O canteiro de obras do futuro já está sendo desenhado hoje, e quem compreender essa transformação deixará de apenas construir edifícios para começar a construir dados, conhecimento e eficiência.
Romeu Neiva é especialista em Inovação Tecnológica na Construção.

